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sábado, 15 de março de 2014

Dia da Poesia

Foi ontem, dia 14 de março o Dia Nacional da Poesia.
Fica o registro do documentário de "O Poeta de Sete Faces", do diretor Paulo Thiago, é um documentário que aborda e ao mesmo tempo investiga e interpreta os diversos momentos da vida e obra de Carlos Drummond de Andrade. O filme teve sua estréia na 26ª Mostra BR de Cinema e entra em circuito comercial nesta sexta-feira como parte da celebração do centenário do poeta.

Um ponto forte da produção é a acertada fuga do formato documental padrão, ao privilegiar um retrato lírico da trajetória de Drummond.

Por essa razão, o filme transcende o mero registro factual, deixando presente a emoção da arte drummondiana que define o texto, a imagem, a música, a montagem e o desenvolvimento dramático do filme.

Paulo Thiago, conhecido por obras como Águia na Cabeça, Jorge, Um Brasileiro e Policarpo Quaresma, transmite, sem qualquer dúvida, sua imensa paixão pelo poeta, conterrâneo e ídolo.

Some-se a isso a tocante interpretação dos atores, especialmente a de Paulo José, que protagonizou Policarpo. Vê-los declamando as poesias tão singulares de Drummond é um bom exercício de exploração dos sentidos tantas vezes apagados pela rudeza do cotidiano.

O documentário pode ser visto também por suas qualidades didáticas: divide-se em três etapas que correspondem às fases distintas da obra de Drummond.

A primeira fase, "Vai Carlos, ser Gauche na Vida", registra desde o seu nascimento em Itabira, em 1902, até o final da sua Poesia Modernista, em Belo Horizonte, antes da mudança para o Rio de Janeiro, em 1934.

É a fase da poesia com a marca do modernismo de 1922 e também da publicação dos primeiros livros: Alguma Poesia e Brejo das Almas - quando nasce o Carlos Drummond de Andrade dos versos anedóticos, sintético-metafóricos e irônicos.

A segunda fase, A Vida Apenas, Sem Mistificação, começa com a mudança de Drummond para o Rio de Janeiro e vai mostrar o "poeta do seu tempo", o momento de atuação política na vida do escritor aliado à sua obra de crítica social.

E por fim a terceira fase, "Como Ficou Chato Ser Moderno, Agora Serei Eterno", do início dos anos 1950 aos 1980. É o período do poeta-filósofo, do verso enigmático, do cronista de sucesso no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil, da glória literária, dos prêmios e homenagens, dos filmes adaptados de sua obra e do retorno aos temas do passado e da memória.

Sem dúvida, as qualidades artística e acadêmica da obra possivelmente podem se tornar referências para novas produções do gênero.

Mesmo se não for aceito pelo público convencional, terá, indubitavelmente, muito a acrescentar às nossas escolas, que parecem ter esquecido a fascinação e o encanto da poesia."
Fonte: Terra

terça-feira, 28 de maio de 2013

Poesia e Arte

Estou voltando para casa!
Minha experiência no Facebook tem sido boa e gratificante. A troca de informações e leituras é rápida. Entretanto, o registro fica perdido no emaranhado de posts.
Resolvi recomeçar.
Vamos lá?

Comecemos com Poemas de Manoel de Barros. 
Desenhos de Evandro Salles. Vídeo integrante da exposição "Arte para Crianças".


domingo, 12 de maio de 2013

MÃE



Mãe


Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

Cora Coralina

Um feliz e amoroso Dia das Mães!

segunda-feira, 5 de março de 2012

A relação entre música e poesia: Heitor Villa-Lobos, Ferreira Gullar e desdobramentos


Hoje comemoramos o 125º aniversário de nosso maior maestro e compositor: Heitor Villa-Lobos. Ele foi o principal responsável pela descoberta de uma linguagem peculiarmente brasileira em música, compondo obras que enaltecem o espírito nacionalista, ao qual incorpora elementos das canções folclóricas, populares e indígenas.
Uma de suas composições mais conhecidas é O Trenzinho do Caipira, parte integrante da peça Bachianas Brasileiras nº 2. A obra se caracteriza por imitar o movimento de uma locomotiva com os instrumentos da orquestra.
Anos depois, a melodia recebeu letra composta por Ferreira Gullar em Poema Sujo:

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar,no ar.

Edu Lobo adaptou  a composição de Villa-Lobos e o poema de Gullar. Maria Bethania em seu show  "A força que nunca seca” faz uma interpretação magistral ao alternar o poema de Gullar e trechos do poema “ Trem de Alagoas” de Ascenso Ferreira.

- Vou danado pra Catende,
                               vou danado pra Catende,
                 vou danado pra Catende
                               com vontade de chegar...

Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.

                 Adeus !
                               - Adeus !
Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...

                               - Adeus morena do cabelo cacheado !
 - Vou danado pra Catende,
                vou danado pra Catende
                               vou danado pra Catende
                               com vontade de chegar...

Cana caiana,
cana roxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...

 - Vou danado pra Catende,
                                vou danado pra Catende
                                vou danado pra Catende
                                com vontade de chegar...




Essa relação entre música e poesia é um dado marcante da cultura brasileira, pois torna possível aproximar o erudito do popular.

Para saber mais:




domingo, 9 de maio de 2010

MÃE


Hoje estive pensando nas mães que sofrem com seus meninos doentes.
Ofereço a elas este poema ...

De Manuel Bandeira

O menino dorme.

Para que o menino
Durma sossegado,
Sentada ao seu lado
A mãezinha canta:
— "Dodói, vai-te embora!
"Deixa o meu filhinho,
"Dorme . . . dorme . . . meu . . ."

Morta de fadiga,
Ela adormeceu.
Então, no ombro dela,
Um vulto de santa,
Na mesma cantiga,
Na mesma voz dela,
Se debruça e canta:
— "Dorme, meu amor.
"Dorme, meu benzinho . . . "


E o menino dorme.


Você pode encontrá-lo nos livros...




Estrela da vida inteira
de Manuel Bandeira
POESIA
Nova Fronteira
A obra poética completa de Manuel Bandeira, contendo os livros A cinza das horas; Carnaval; O ritmo dissoluto; Libertinagem; Estrela da manhã; Lira dos cinqüent'anos; Belo belo; Opus 10; Estrela da tarde; Mafuá do malungo; Poemas traduzidos.




Berimbau e outros poemas (nova edição)
de Manuel Bandeira
il. Graça Lima
Nova Fronteira










Outro poema e outra dica de livro no blog De palavra em palavra.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Cântico da Terra




O cântico da terra

Cora Coralina


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Fonte: Releituras

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Romanceiro da Inconfidência



Vários poetas modernos revisitaram o romanceiro, gênero literário medieval, entre eles Cecília Meireles.

A primeira edição do Romanceiro da Inconfidência data de 1953.  Em 2004, foi lançada uma edição comemorativa pela Edusp com ilustrações criadas  por Renina Katz entre 1956 e 1958,  sob a guarda  de José Mindlin.







“Quando terminei a leitura, comecei a desenhar sem parar. Fiquei encantada por esse épico da literatura brasileira, pelos versos fluindo com tanta força e emoção e, ao mesmo tempo, com tanto realismo”
Renina Katz





De Cecília Meireles

Romanceiro da Inconfidência

Romance LIX ou Da reflexão dos justos

(trecho)

Foi trabalhar para todos...
– e vede o que lhe acontece!
Daqueles a quem servia,
já nenhum mais o conhece.
Quando a desgraça é profunda,
que amigo se compadece?



Tanta serra cavalgada!
Tanto palude vencido!
Tanta ronda perigosa,
em que sertão desconhecido!
– E agora é um simples Alferes
louco, – sozinho e perdido (...)



Que tempos medonhos chegam,
depois de tão dura prova?
Quem vai saber, no futuro,
a que se aprova ou reprova?
De que alma é que vai ser feita
essa humanidade nova?


sábado, 3 de abril de 2010

Páscoa

Ovos da Páscoa


O ovo não cabe em si, túrgido de promessa,
A natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso
O que vai viver, espera.



Adélia Prado in “Bagagem”


Espero que Jesus abençoe todos nesta Páscoa. Suas santas palavras são meu alimento e a poesia, como dizia Quintana, "purifica a alma..."e "um belo poema sempre leva a Deus".

Fátima

domingo, 28 de março de 2010

Sabor de Palavra

Sabor de Palavra é o blog de Poesia de Teresa Martinho Marques que vive entre o Tejo e o Sado. Tenho dois livros dela e falei deles aqui ó e aqui também! Como gostaria de vê-la atravessar o Atlântico para lançar um livro no Brasil. Enquanto esse dia não chega, publico "Antes de ser dia" para provarem as palavras de T e iluminarem o olhar com uma imagem de Vlad Gerasimov.





Antes De Ser Dia


Percebemos pelo sorriso
que não está sozinho.
Ali
mesmo ao virar da esquina
do azul
no rectângulo casa
(conseguem ver?)
uma princesa
que é quase fada
quase menina quase mulher
vem já já já
muito depressa
antes de ser dia
contar-lhe um segredo
que é uma promessa
oferecer um beijo
colar-lhe uma asa
fazer-lhe um feitiço
chamado magia.

Teresa Martinho Marques

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pais e Filhos


Pais e Filhos

Letra: Renato Russo 
 Música: Dado Villa-lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

Estatuas e cofres. E paredes pintadas.
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar.
Nada é fácil de entender.

Dorme agora.
É só o vento lá fora.
Quero colo. Vou fugir de casa.
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo. Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.

Meu filho vai ter nome de santo.
Quero o nome mais bonito.

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.

Me diz porque que o céu é azul.
Explica a grande fúria do mundo.
São meus filhos que tomam conta de mim.

Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar.
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.
Eu moro com os meus pais.

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.

Sou uma gota d'agua
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não lhe entendem.
Mas você não entende seus pais.

Você culpa seus pais por tudo.
E isso é absurdo.
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?


Minha homenagem ao gênio Renato Russo, mais um grande artista aqui da minha Ilha do Governador. Nossa Lona Cultural leva seu  nome e possui uma exposição permanente. Visitem.

domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia

O Dia Mundial da Poesia foi instituído pela UNESCO em 2000. Durante a conferência, o japonês Koichiro Matsuura, justificou a iniciativa pela “universalidade e natureza transcendental desta forma de expressão, constituindo por isso mesmo um meio incomparável para a compreensão inter - cultural e para a consolidação da paz no mundo.”
Aproveito a data para homenagear a  poeta americana Emily Dickinson.

Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.

Tradução: Aíla de Oliveira Gomes


Para encher um vazio
Ponha de volta Aquilo que o causou.
Baldado cobri-lo
Com outra coisa  -- sua boca vai mais se escancarar –
Não se pode soldar o abismo
Com  ar.

Tradução de Aíla de Oliveira Gomes



Para jovens (como eu!), há dois livros bilingues com poemas de Emily Dickinson: Um livro de horas com tradução e ilustração de Ângela-Lago, e Poemas Escolhidos traduzidos por Ivo Bender.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Dia Nacional da Poesia


Consideração do poema

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.


    Releituras


O Dia Nacional da Poesia foi ontem! Sem problemas porque poesia é para todo dia ou deveria ser. Não sei como alguém tem a capacidade de dizer que não gosta de poesia. Impossível não admirar Carlos Drummond de Andrade, um dos nossos grandes poetas.

sábado, 13 de março de 2010

A Mulher e o Mar


Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.

Sophia de Mello Breyner Andersen




Esses versos de um poema de Sophia de Mello Breyner Andersen refletem sua intensa relação com o mar. Eu diria que esta é Sophia: a mulher e o mar. E ainda me atrevo a dizer que sou eu. Em algumas ocasiões, deixei claro que preciso do mar para me sentir renovada.
O meu primeiro contato com a escritora foi através da literatura infantil. Tenho uma edição bem antiga de A Fada Oriana. A poesia veio mais tarde e me encantou. Escolhi algumas para leitura e apreciação.





Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)












sexta-feira, 12 de março de 2010

Ó Mulher


A Mulher


Florbela Espanca

I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se à vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então vis: "Olhem, vejam
É aquela a infame!" e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!


II

Ó Mulher! Como é fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma image
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Mais um post com o tema Mulher.
Hoje, Florbela Espanca, uma apaixonada por livros. Certa vez, em carta a uma amiga escreveu:

"Eu não sou em muitas coisas nada mulher; pouco de feminino tenho em quase todas as distrações de minha vida. Todas as ninharias pueris em que as mulheres se comprazem, toda a fina gentileza duns trabalhos em seda e oiro, as rendas, os bordados, a pintura, tudo isso que eu admiro e adoro em todas as mãos de mulher, não se dão bem nas minhas apenas talhadas para folhear livros que são, verdadeiramente, os meus mais queridos amigos e os meus inseparáveis companheiros." 

quarta-feira, 10 de março de 2010

Mulher ao Espelho


“Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira.”

Cecília Meireles

Percebi que as mulheres ocupam um espaço insignificante na minha estante. Então resolvi reparar o equívoco, começando pelo blog. Admiro a poesia e a prosa de muitas. Comecei com Adélia Prado, passei por Cora Coralina e hoje Cecília Meireles. Escolhi a imagem porque ela foi a primeira fundadora de uma Biblioteca Infantil.





Mulher ao espelho

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seu
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.




Cecília Meireles

terça-feira, 9 de março de 2010

Mulher da Vida

Mulher da vida, minha irmã
               Cora Coralina


Mulher da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.


Mulher da Vida, minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.

As pedras caíram
e os cobradores deram s costas.

O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.

Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.

Mulher da Vida, minha irmã.

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.

E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrurível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.

Mulher da Vida, minha irmã.

Declarou-lhe Jesus:
“Em verdade vos digo
que publicanos e meretrizes
vos precedem no Reino de Deus”.
Evangelho de São Mateus 21, ver.31.


 Poemas dos becos de Goiás. Editora Global.

Mais poesia para a mulheres. Desta vez, de Aninha, dedicada ao Dia Internacional da Mulher em 1975.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Marcha de Quarta-feira de cinzas



Marcha de Quarta-Feira de Cinzas

Composição: Vinicius de Moraes / Carlos Lyra

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

É mesmo tudo o que resta após tantos dias de folia?

'Lembra-te que do pó viestes e ao pó, hás de retornar'

Gn 3,19

Começa a Quaresma, um tempo de conversão, de arrependimento, de partilha e de oração. Tudo é passageiro e a mudança de hábitos e atitudes é possível. A Campanha da Fraternidade de 2010 tem o tema "Economia e Vida" e o lema " Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro" Mt 6,24

Paz para todos.

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