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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sobre Lobato

Essa é a última edição de Memórias de Emília de Monteiro Lobato, livro lido aos nove anos e que guardo até hoje. A capa era outra. Quer mesmo vê-la e saber como veio parar em minhas mãos? Clique aqui. Certa vez, disse que sou parecida com a personagem e para ser igual só se fosse costurada pela Tia Nastácia. Leia aqui.

A questão hoje é outra. As crianças não leem Lobato!
Quais seriam os motivos? 
Sempre tive minhas respostas baseadas na prática,  porém não sou especialista no assunto.
Resolvi expor o que alguns escritores pensam. Acompanhem.



"Quem inventou literatura infantil no mundo se chama Monteiro Lobato. 
Lobato vem do ambiente rural e ainda faz suas histórias nesse ambiente. Então, é difícil a criança de hoje, que não sobe mais num pé de jabuticabeira, não é mais picada por vespa na ponta do nariz, se identificar. É uma vida totalmente diferente."
Pedro Bandeira

"Uma grande obra literária dura muito tempo. Acontece no Brasil uma coisa triste: o ensino foi piorando e hoje as crianças de sete anos, que deviam estar lendo Lobato, não conseguem, porque ainda aprenderam pouco. A gente lia Lobato com essa idade. Hoje, a criança só vai ler correntemente ali pelos nove anos, e aí as histórias do Lobato já são infantis demais para ela."
Ruth Rocha

"As crianças não leem mais Lobato na escola simplesmente porque os professores não o leram. Quando dou curso para formação de docentes, proponho a leitura de suas obras e há uma revolução na vida deles. O imaginário sobre o autor era até então construído por fragmentos de livros didáticos e pelas duas versões para a televisão."
João Luís Ceccantini

"Monteiro Lobato, hoje em dia, é vítima da estreiteza dos temas transversais e dos parâmetros curriculares. Há professores que me perguntam: “Como vou indicar um livro onde a Emília chama a Tia Anastácia de preta beiçuda?” Tive ainda a experiência de ser questionada sobre como lidar com a questão ecológica em Caçadas de Pedrinho, pois as crianças matam uma onça. O policiamento e o ser politicamente correto incide no preconceito, ao omitir qualquer texto que revele qualquer manifestação de alteridade."

Marisa Lajolo

Fonte:UNESP

A escritora Fanny Abramovich participa do site Vidas Lusófonas com a biografia de Monteiro Lobato. Observem o trecho abaixo:

“Hoje, nas escolas, não armam mais fogueiras. Mas também não lêem o Lobato como deveriam... Encostaram, esconderam... As crianças o conhecem pouco e estão perdendo tanto... Culpa das mães e professoras preguiçosas com um texto mais longo, medrosas das cutucadas que ele dá, das esculhambações afiadas que passa e querendo tudo, menos crianças soltas e críticas como Pedrinho e Narizinho.

Este Sítio, uma possibilidade utópica de civilização harmônica, inteligente, atuante, onde todos querem se refugiar, é como diz a Emília : " O segredo, meu filho, é um só: liberdade. Aqui não há coleiras. A maior desgraça do mundo é a coleira. E como há coleiras espalhadas no mundo.
Beijos da eterna leitora do Lobato,
Alice”

Uma sugestão é apresentada diante desse quadro pouco animador.

"Talvez seja o caso de dessacralizar a obra, assim como Lobato fazia, ler de outra forma, com mais liberdade, pulando trechos, deixando a criança fazer seu próprio caminho."
Marisa Lajolo 

Querem apresentar outros motivos ou, melhor ainda, soluções?
O espaço está aberto!



12 comentários:

Aline disse...

Adorei o post!
Concordo com os comenários de Marisa Lajolo, João Luís Ceccantini e Fanny Abramovich. Acho que tem um pouco dos três motivos, mas o de Pedro Bandeira não sei se é válido, visto que quando comecei a ler Lobato, nunca tinha visto uma jabuticabeira, vespa ou porco ao vivo, e isso não me impediu de gostar dos livros.

Já o de Ruth Rocha sou veementemente contra. Não acho que Lobato esteja limitado a uma faixa etária. Infantil aos nove anos?! Se não me engano, foi com essa idade que comecei a lê-lo.

Enfim, acredito mais que hoje em dia não se lê tanto Lobato por causa de professores e pais que não o oferece aos pequenos (por não conhecerem ou se interessarem) do que por um suposto repúdio das crianças.

Marli disse...

Oi Fátima!
Eu acho que hoje tem tanta obra literária para crianças, tantas opções com ilustrações maravilhosas, que infelizmente, livros com textos mais longos como o de Lobato acabam ficando em segundo plano. Talvez se os livros viessem com imagens agregadas, seriam mais lidos. Não que eu ache que teriam mais valor, mas as crianças de hoje estão seduzidas pelas imagens, aliás não só elas. Funcionaria como um atrativo para os textos. Também concordo que os professores tem algum pecado quanto a isso. Poucos oferecem essas obras aos alunos. Deveríamos ler mais em sala de aula, usar algumas estratégias para atrair as crianças. Cada vez mais o tempo precisa ser dividido entre mil atrações, como a televisão e internet, por isso também a escolha por leituras mais rápidas. Acho que as crianças estão divididas entre tudo isso e o tempo da leitura fica prejudicado. Abraço!

Frank Toogood disse...

Sinto-me privilegiado por ter tido contato com Lobato quando criança. MAis do que isso, estudado um pouco sua história de vida, sua fixação pelo avô, a origiem no interior...

Essa coisa do politicamente correto não me afetou em nada e não é "com as crianças de hoje" que ter algum efeito negativo. Muito pelo contrário..

Aliás... talvez falte justamente isso às crianças. Contato com o mundo real.

Podemos mandar esse texto pro MEC? Ver "O poço do Visconde" no vestibular seria fabuloso! Assunto não iria faltar

Fátima Campilho disse...

Frank,

Fiz apenas uma introdução neste post e acrescentei trechos de livros, entrevistas e artigos dos escritores citados.Preciso ainda confirmar se Fanny Abramovich é mesmo a autora do trecho da personagem Alice e em que livro foi publicado! O texto de minha autoria é o indicado no link.
Abraços,
Fátima

Frank Toogood disse...

Fátima,

Na verdade, é uma ideia bastante incompleta e abstrata. Se podemos ter no vestibular Gil Vicente, Camões e Eça de Queiróz, por que não um Monteiro Lobato e sua turma?

Os livros de Lobato tem várias interpretações. Quando crianças achamos graça da Emília, queremos experimentar o pirlimpimpim, sonhamos com uma avó tal qual Dona Benta. Bolinhos de chuva? Hummmmm!!!!

Quando adultos, percebemos a sociedade, as críticas, a visão de futuro, o próprio modo de vida precário (no sentido tecnológico) dos sitiantes... Dois mundos.

Há muita coisa a se abordar num vestibular usando Lobato. É perfeitamente possível, se não lógico. Mas é só uma ideia...

Pra falar a verdade, nem sei como se sugere uma ideia dessas, mas as ideias que você reuniu mostram um desejo comum: recolocar Lobato no seu devido lugar.

Rocio Rodi disse...

Oi Fátima!
A Fanny é muito sensível, também chego a duvidar que este comentário seja mesmo dela. A única questão a ponderar é sobre o comentário de Marisa Lajolo. No contexto da criação de Lobato, o Brasil era outro, a negra no papel de cozinheira é uma excelente contadora de histórias, sábia e parceira amiga da Dona Benta, a matriarca do Sítio. As mulheres ali tinham papel importante como educadoras, abertas, flexíveis, decididas, amorosas. E Lobato para contrariar a todos da época publica o livro do presidente negro mexendo bastante com o imaginário popular. O que as crianças precisam é de um bom mediador, um amante de histórias e que conheça Lobato, no mais tudo se ajeita (hic!).

Rocio Rodi disse...

Fátima!!!
Preciso recolocar minha escrita anterior, sou contra o que a Marisa Lajolo fala acerca do que dizem os professores a respeito de Anastácia. Que gafe! E concordo com o que escreve sobre o fato de "Monteiro Lobato, hoje em dia, [ser] vítima da estreiteza dos temas transversais e dos parâmetros curriculares".

becalmeida@gmail.com disse...

Oi Fátima! Excelente discussão!
Discordo inteiramente do Pedro Bandeira e em parte de Ruth Rocha. E a imaginação? Assim, ninguém leria Robison Crusoé e D. Quixote!
Minha primeira leitura de Lobato começou com Reinações, que realmente me encantou e me jogou direto no Reino das Águas Claras. Junto com Narizinho me apaixonei pelo Príncipe Escamado e com Emília, que queria muito para mim, quis dominar os besouros...
Mas ficou por aí, por muito tempo. Pouco me interessei por outros livros, a não ser as Histórias de Tia Nastácia que podia ler de forma avulsa e as Fábulas. Depois de adulta, já na faculdade, despertada pela paixão de Fátima Miguez, minha professora, retomei a Leitura de Lobato. Li pela primeira vez A chave do tamanho, e me tomei de paixão por ele, admirada com tanta riqueza de imaginação aliada à informação científica, protagonizada por Emília acomapnhada do paciente Visconde tentando consertar as confusões dela.
Ano passado, com minhas turmas de 6º ano, resolvi dedicar o mês de abril à leitura de Monteiro Lobato. No primeiro dia fiz uma aula sobre Lobato e sua importância, seus personagens e características principais. Cada aluno teve (foi obrigatório mesmo!)que levar um volume para casa e no final do mês programei uma roda de leitura. Durante o mês, nas aulas, perguntava sobre a leitura, comentava alguns trechos de forma apaixonada, provocando a leitura.
Na roda, todos são também obrigados a participar, embora não sejam repreendidos por não ler. Apenas pergunto se leram, por que não e faço um comentário sobre o livro que está com o aluno. Como terão que fazer uma redação sobre a roda, prestam atenção. No final, muitos alunos se interessam pela leitura, ficam curiosos através dos relatos dos colegas e de minhas provocações. Acabam pedindo para ficar com o livro para ler, mesmo que poucos. Talvez só despertem para a leitura com o tempo, como eu, mas a semente foi lançada...
Beth

becalmeida@gmail.com disse...

Só mais um pouco...
A genialidade de Lobato incomoda, e muito, até hoje porque ele dá voz às crianças através de Emília, que pode perguntar e criticar à vontade, porque é boneca; dá voz à preciosa herança da cultura africana através de Tia Nastácia e Tio Barnabé (prestaram atenção ao tratamento com grau de parentesco "tio/tia" numa época em que isso não era moda?, dá voz à cultura nativa nos personagens míticos, sempre colocando as crianças como protagonistas e não coadjuvantes. Às favas com o politicamente correto! E muitos vivas para o mediador apaixonado, peça fundamental no despertar da curiosidade do texto literário!
Beth

Rocio Rodi disse...

Uma coisa é certa, com um bom leitor de Lobato como o professor com ou sem imagens Monteiro Lobato é maravilhoso, as crianças todas vão querer ser Emília, Nastácia, Narizinho, Visconde, Dona Benta, Anastácia, o Saci, o Pedrinho, o Barnabé, a Cuca... enfim, aqueles que elas mais se identificarem em cada leitura e em cada tempo. Por isso, volto a insistir, o papel do leitor professor é fundamental na mediação e na alegria da criançada de todas as idades.

Rocio Rodi disse...

Olá Fátima!
A pressa é inimiga da perfeição, como diz o ditado, nesse corre-corre entre atividades cotidianas, lemos, escrevemos e comentamos nos blog dos colegas, em meio a outras atividades nossas, vida de edublogueiros. Assim venho corrigir outro erro crasso, ao invés de Fanny, queria eu dizer que era Ruth Rocha, pois, não acredito que ela tenha colocado o limite da idade como empecilho para gostar de ler Lobato. Trabalho em dinâmicas com alunos do 9o. ano ou de Pedagogia que se deliciam com as peripécias de personagens lobatianos, tudo depende da mediação pedagógica, não é mesmo?

MAIRA MIRANDA disse...

Olá Fátima!
Como pedagoga a quase 20 anos acho que essa questão fica por conta dos educadores que não são leitores e não proporcionam um envolvimento da criança com os livros de Lobato numa perspectiva de prazer com o acesso as histórias nas bibliotecas de salas, aulas de leituras, com associação das famílias nas contações, etc. A motivação do professor é determinante para envolver seus educandos.

Maira Miranda
http://profmairatarrago.blogspot.com

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