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domingo, 5 de outubro de 2008

40 anos sem Lalau



Lançamento da Agir, A Revista do Lalau é um livro de textos inéditos de Sérgio Porto (1923-1968), o inventor da família Ponte Preta, composta por Stanislaw, Tia Zulmira, Primo Altamirando e Rosamundo. O formato é de periódicos dos anos 50 porque ele trabalhou nas revistas O Cruzeiro e Manchete.
Sérgio Porto escreveu sobre cinema e música, foi cronista da noite e de futebol, além de ter trabalhado na televisão e no rádio, e elaborado scripts de shows e composições , como o Samba do Crioulo Doido, uma sátira sobre as dificuldades dos autores de samba-enredo, obrigados a desenvolverem em suas composições temas históricos.
A geração atual não conhece o humor crítico do jornalista que inspirou O Pasquim e a turma do Casseta e Planeta. No livro, "estão reunidas as melhores crônicas publicadas na coluna Episódio da Semana, nos jornais Diário Carioca e Última Hora, a sua visão sobre o jazz no mundo e no Brasil, e suas contundentes e hilárias chicotadas na subserviência cultural do País".
Sempre uso, em minhas aulas, suas crônicas sempre atuais. Neste ano, escolhi Inferno Nacional, publicada no livro Dois amigos e um chato.
Inferno Nacional
A historinha abaixo transcrita surgiu no folclore de Belo Horizonte e foi contada lá, numa versão política. Não é o nosso caso. Vai contada aqui no seu mais puro estilo folclórico, sem maiores rodeios.
Diz que uma vez um camarada que abotoou o paletó. Em vida o falecido foi muito dado à falcatrua, chegou a ser candidato a vereador pelo PTB, foi diretor de instituto de previdência, foi amigo do Tenório, enfim... ao morrer nem conversou: foi direto ao Inferno. Em chegando lá, pediu audiência a Satanás e perguntou:
- Qual é o lance aqui?
Satanás explicou que o inferno estava dividido em diversos departamentos, cada um administrado por um país, mas o falecido não precisava ficar no departamento administrado pelo seu país de origem. Podia ficar no departamento do país quer escolhesse. Ele agradeceu muito e disse a Satanás que ia dar uma voltinha para escolher o seu departamento.
Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o departamento dos Estados Unidos, achando que lá devia ser mais organizado o inferninho que lhe caberia para toda a eternidade. Entrou no departamento dos Estados Unidos e perguntou como era o regime ali.
- Quinhentas chibatadas pela manhã, depois passar duas horas num forno de duzentos graus. Na parte da tarde: ficar numa geladeira de cem graus abaixo de zero até as três horas, e voltar ao forno de duzentos graus.
O falecido ficou besta e tratou de cair fora, em busca de um departamento menos rigoroso. Esteve no da Rússia, no do Japão, no da França, mas era tudo a mesma coisa. Foi aí que lhe informaram que tudo era igual: a divisão em departamento era apenas para facilitar o serviço no Inferno, mas em todo lugar o regime era o mesmo: quinhentas chibatadas pela manhã, forno de duzentos graus durante o dia e geladeira de cem graus abaixo de zero, pela tarde.
O falecido já caminhava desconsolado por uma rua infernal, quando viu um departamento escrito na porta: Brasil. E notou que a fila à entrada era maior do que a dos outros departamentos. Pensou com suas chaminhas: "Aqui tem peixe por debaixo do angu". Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que a fila era maior e os enfileirados menos tristes. O camarada da frente fingia que não ouvia, mas ele tanto insistiu que o outro, com medo de chamarem atenção, disse baixinho:
- Fica na moita, e não espalha não. O forno daqui está quebrado e a geladeira anda meio enguiçada. Não dá mais de trinta e cinco graus por dia.
- E as quinhentas chibatadas? - perguntou o falecido.
- Ah... O sujeito desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e cai fora.

Stanislaw Ponte Preta. Dois amigos e um chato. São Paulo, Moderna, 1986.
A seguir, Samba do crioulo doido:




Um comentário:

Prof. Teresa disse...

Olá Fátima. Obrigado pela visita. Em Portugal, o programa de 9º ano inclui textos dos séculos XIV-XV (Gil Vicente) e XVI (Camões), bem como XIX (Eça de Queirós). Faz sentido dar-lhe uma noção, antes de terminarem o Ens. Básico, de como evoluiu a sua língua. Em termos culturais também só lhes faz bem :-)

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