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sexta-feira, 28 de julho de 2006

Leitores e Escritores



A um bruxo, com amor


Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
a parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.

Carlos Drummond de Andrade



Drummond escritor/leitor apreendeu a grandeza e o gênio de Machado de Assis nesse poema. Nosso maior escritor revisitado pelo nosso maior poeta.
Fica esse desejo de reler toda obra de quem escrevia com “a pena de galhofa e a tinta de melancolia” em sua obra-prima Memórias Póstumas de Brás Cubas.
E você, amigo, vai e “penetra surdamente no reino das palavras” com os poemas de Drummond.
Se não ficar convencido, reflita com Daniel Pennac quando afirma que o homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só.”

Seria interessante que visitassem o espaço Machado de Assis e o site Memória Viva.

O título do post seria Dia do Escritor (25 de julho), porém ao ler A manhã do Dia do Poeta em Boca de Luar, desisti. É imperdível. Leiam, leiam e leiam.

6 comentários:

Martinha disse...

Olha aqui um Blog que vale a pena visitar, ler e reler. Não sabia que dia 25 último foi o dia do Escritor, que bela lembrança, querida, obrigada! Gostei. Suas "histórias essenciais" são cheias de cultura e aprendizado. Ah...e a estátua do Drummond eu vi no Rio, recentemente rs...muito legal. Sentei do lado e bati um papinho com ele rs.
Beijo carinhoso...bom final de semana pra ti!

Vivian disse...

Que facilidade para homenagear Drumont na voz de todos os poetas/escritores, né linda?
Saudades de vir aqui, saudades de você nos meus cantinhos tbm..
Muahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Helena de Tróia disse...

Ele é , sem dúvida, o poeta maior!

José Alberto Mostardinha disse...

Viva:

Gostei da visita.

Um abraço,

rouxinol de Bernardim disse...

Parabéns, Fátima!

Valeu a pena voar de Portugal e poisar nesta homenagem à cultura brasileira. Drumond de Andrade é um "monstro sagrado", as suas palavras foram esculpidas pelo vento da sabedoria e polidas pela brisa da ironia. Gostei imenso de visitar este cantinho! Será um prazer receber-te na minha árvore!

Anônimo disse...

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