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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sylvia Orthof


A PESTE QUE EU FUI OU... AI, QUE FALTA DE SAUDADES DOS MEUS OITO ANOS!
A bicicleta era uma só. Era uma velha bicicleta, meio desconjuntada, pintada de "azul cheguei" e, SOBRETUDO, era minha. Os adultos queriam jogar bridge, ou sei lá, enfim, não desejavam crianças na sala, sobretudo, também, por causa do bridge. Então, os adultos diziam assim:
- Vão andar de bicicleta, queridinhas!
Eu ficava uma fera. Andar na MINHA bicicleta, sair da MINHA CASA e fingir, sobretudo, que não percebia o outro jogo do MEU pai!
A amiga, naqueles tempos passadíssimos, era gorda. Minha obrigação era levá-la no selim. Lá ia eu, curtindo meu ódio, levando a gorducha e bonita e rosada e louçã e... pois é!
Eu morava na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Naquele tempo quase não havia automóvel por ali, lugar ideal para levar a gorda, bonita, rosada e louçã, no selim, enquanto eu, magra, arrepiada e exausta, suava, nhec, nhec, pedalando a MINHA bicicleta... a gorda, só tomando brisa, cantarolava, louçã.
Aí, eu vi um paralelepípedo muito atraente, fora do lugar, no caminho. O paralelepípedo, de um lado, o buraco do outro, com muito lugar ainda para a bicicleta passar, sem problemas.Foi quando eu perguntei para a louçã:
- Você gostaria de morrer caindo naquele buraco, ou preferiria fraturar o nariz naquela pedra? Escolha, queridinha, porque eu vou fazer com que você odeie bicicletas para o resto da sua vida!
...

Sylvia Orthof

Estava guardando este texto, isto é, trecho, desde que o encontrei na velha estante da minha “casa contadora de histórias”, onde ainda estão muitos livros que não cabem no meu apezinho. Lembrei-me dele como o melhor texto de literatura infantil publicado para ilustrar a perversidade infantil abordada por Elisabeth Roudinesco.
Queria homenagear Sylvia Orthof nos setenta e seis anos do seu nascimento, no próximo dia 3 de setembro, data também do aniversário do meu saudoso pai, porém não agüentei esperar. É um dos textos que compõe o esgotado livro organizado por Fanny Abramovich intitulado O Sadismo da Nossa Infância, Editora Summus. Torço pela reedição. Enquanto isso, procurem na Estante Virtual aqui. Publico o texto na íntegra assim que puder!
Para conhecer a obra da escritora visite o blog organizado pela filha Cláudia e pela neta Mariana.
E para quem ainda não foi apresentado aos meus amigos Tino e Ana Paula, Roedores de Livros, confira a Firimfimfoca, um trabalho especial dedicado às “histórias de uma fada carioca”.
Leia também a biografia escrita por Rosa Amanda Strausz aqui.
Certamente, você vai perceber que sonhar é possível pois ela viveu intensa e plenamente.


“Descobri que sempre é hora de começar algo novo, de forma inteira.”
Sylvia Orthof

3 comentários:

Anônimo disse...

Querida Fátima,estou acompanhando sempre as novidades do seu blog.Viajei com vc para Paraty,li e reli vários títulos indicados por vc.Parabéns. Muito bom .

Jussara Rosas disse...

Querida Fátima Penso que cometi algum erro ao enviar comentário. Porém desejo felicidades e dizer que seu blog é 1000

Else disse...

Aaaah, mas essa história é deeee-maaaaais!!! O final dela é duma vingancinha ótima, iac iac iac!!!! REleio os livrswo dela com um prazer infantil, leio para minhas turmas, inclusive para os de mais idade.
Bjim, Fátima!!

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